Rock In + ou – Fique Sabendo

Diferente das edições anteriores, em que nada foi feito com relação à aids, o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde realizará durante o Rock in Rio IV a ação de testagem rápida para o HIV, com a campanha “Fique Sabendo”. A ideia é chamar a atenção para a importância da prevenção das DST/aids. Além de oferecer 500 testes rápidos de HIV, durante o evento, onde são esperados mais de 700 mil participantes



Desde os tempos de Woodstock, os festivais de rock foram associados ao consumo de drogas. Quatro décadas depois, com o avanço do crack e do oxi, e sem o apelo libertário do movimento hippie, do movimento pacifista e do amor livre, tudo o que um festival não quer é essa imagem.

Nesta edição do Rock In Rio* IV, para diminuir este estigma, os organizadores lançaram a campanha “Eu vou sem drogas”. Todos sabem que o festival é um prato cheio para o consumo de todos os tipos de drogas, inclusive o álcool, já que vários patrocinadores oficiais estarão lucrando milhões com a venda de seus produtos alucinógenos, disfarçados de drogas licitas.

Difícil mesmo é assumir que os festivais de rock, principalmente o Rock In Rio, desde sua primeira edição em 1985, por trás do consumo de bebidas alcoólicas, drogas e do sexo livre, acontece a disseminação desenfreada do vírus HIV e que estes festivais por não realizarem atividades de prevenção, tenham sido a porta de entrada do HIV no Brasil, e em outros países. Levaram três décadas para se sensibilizarem e criarem uma campanha contra as drogas, quanto tempo levarão para se sensibilizarem e colocarem a prevenção às DST/aids no planejamento do evento?

Só lamento que Fred Mercury e Cazuza não estejam mais aqui para contarem a história e nem pra chamar a atenção da importância de se fazer a prevenção às DST/aids nestes eventos.

Acredito nesta minha teoria, tendo em vista que eu fui infectado no Rock In Rio II, quando iniciei um relacionamento com uma menina que havia conhecido no festival, e, compartilhei uma seringa ao experimentar heroína. Se tivesse tido acesso às informações sobre uso de drogas e redução de danos não teria, por exemplo, compartilhado a seringa. Como não poderia ser diferente de outros festivais, neste também o sexo e a droga estavam liberados, mas em nenhum momento se viu alguém alertar ao público, sobre os riscos de se infectar com o HIV. Mesmo em 1985, ano em que acontecia o boom da epidemia de aids no mundo.

Outro fator que reforça esta minha teoria, é quanto a origem da aids. Já descobriram que, ao contrário do que se pensava, o HIV não passou a infectar o homem na década de 80. Alguns trabalhos científicos recentes, publicados na renomada revista "Science Magazine”, sugerem que isso tenha ocorrido entre os anos 40 e 50. O vírus da imunodeficiência símia (SIV), que infecta uma subespécie de chimpanzés africanos, é 98% similar ao HIV-1, sugerindo que ambos evoluíram de uma origem comum. Por esses fatos, supõe-se que o HIV tenha origem africana. Ademais, diversos estudos sorológicos realizados na África, utilizando amostras de soro armazenadas desde as décadas de 50 e 60, reforçam essa hipótese. Com isso pode se explicar porque o HIV foi rapidamente espalhado pelo mundo e, acredito que o Woodstock, realizado no inicio dos anos 70, quando o HIV ainda era desconhecido pela classe cientifica, já infectava a humanidade, e pode ter sido um potencial disseminador para o mundo, assim como o Rock In Rio, no Brasil.

Diferente das edições anteriores, em que nada foi feito com relação à aids, o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde realizará durante o Rock in Rio IV a ação de testagem rápida para o HIV, com a campanha “Fique Sabendo”. A ideia é chamar a atenção para a importância da prevenção das DST/aids. Além de oferecer 500 testes rápidos de HIV, durante o evento, onde são esperados mais de 700 mil participantes, serão também distribuídos 250 mil preservativos por dia.

O teste será o principal foco da ação e, polêmicas a parte, não deixa de ser uma grande oportunidade de dar visibilidade nacional e internacional às ações públicas de aids, realizadas pelo governo brasileiro, bem como uma grande oportunidade para também darmos visibilidade a calamidade da saúde publica do Rio de Janeiro, provocada pela inércia e falta de vontade política dos governantes municipais e estadual de saúde perante as ausências das ações do melhor Programa de Aids do mundo em nosso estado. Calamidade sim, visto que ainda hoje morrem 125 cariocas por mês vitimas da aids, e mais de 5 mil se infectam com o HIV por ano só no Rio de janeiro, em virtude do descaso das autoridades responsáveis pela consolidação das ações públicas de assistência, diagnóstico e tratamento aos portadores do vírus.

Vejo a iniciativa da ação (testagem no Rock in Rio) de grande importância para a população, pois concordo que se deve disponibilizar e facilitar à população o diagnóstico para o HIV, pois graças ao diagnostico precoce, vivo há 20 anos, razoavelmente bem, com este vírus, e só não estou melhor porque está cada vez mais difícil, aqui no Rio, o acesso aos medicamentos e exames que poderiam nos dar mais qualidade de vida.

O que me incomoda nesta ação, além de pouco se abordar a prevenção e a informação, o que ocasionou, por exemplo, minha infecção pelo HIV no Rock In Rio II, é que acabando o Rock In Rio ficará a impressão para o mundo de que as políticas públicas de aids no Brasil e no Rio de Janeiro estão as mil maravilhas e que estamos todos assistidos e medicados, quando na verdade enfrentamos um momento em que: não temos leitos disponíveis para internações, há demora na entrega de resultados dos exames de CD4, carga viral, genotipagem, temos falta e fracionamento crônico de medicamentos e, uma tremenda incerteza, de termos ou não os medicamentos no mês seguinte, já que os estoques de vários antirretrovirais estão zerados há quatro meses.

Gostaria que nossos gestores ficassem sabendo que além de nós, que já vivemos e/ou estamos morrendo pelo descaso deles, que os participantes do Rock In Rio IV que tiverem seus resultados positivos também ficarão a mercê da própria sorte, caso eles (gestores) não tomem vergonha e façam jus as cadeiras que sentam e aos megas salários que recebem as nossas custas. Eles precisam se mexer e colocar em prática os seus deveres no controle às DST/aids.

Mesmo assim, saliento, o foco deveria ser a prevenção, ação essa, que pouco será abordada no Rock In Rio IV.


* Esta edição do Rock in Rio será realizada nos dias 23, 24, 25, 29, 30 de Setembro e 01 e 2 de outubro no Parque Olímpico Cidade do Rock, no Rio de Janeiro.

Cazu Barroz é coordenador da Comissão Nacional Programa Saúde do Jovem, da Federação de Bandeirantes do Brasil, e autor do livro "Rock In Positivo. Um adolescente que decidiu viver com aids".
 

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