Remédios reduzem em 96% a transmissão da Aids


Estudos constataram que os antirretrovirais aumentaram a sobrevida dos soropositivos. No fim dos anos 1990, o surgimento dos antirretrovirais revolucionou o tratamento e a qualidade de vida das pessoas com a síndrome da imunodeficiência adquirida, a Aids. Ao utilizar uma combinação de três ou mais medicamentos de classes distintas, a terapia é capaz de interromper a replicação do vírus da imunodeficiência humana (HIV), permitindo, assim, a recuperação do sistema imunológico de seu portador. Apesar dos inegáveis benefícios, ainda hoje não existe um levantamento completo que quantifique e analise as diversas mudanças positivas da implementação dos medicamentos. Além disso, não é raro encontrar argumentos que questionem o alto custo do tratamento para os cofres públicos.

Após mais de 10 anos de estudo, pesquisadores da Universidade de KwaZulu-Natal, na África do Sul, muniram-se de diversas evidências para provar as vantagens do tratamento, incluindo a possibilidade de o uso deles reverter a epidemia do HIV no mundo. A partir do acompanhamento de diversos casais de KwaZulu-Natal sorodiscordantes — em que somente uma das pessoas é HIV positivo —, os cientistas constataram pela primeira vez que as pessoas que ingerem os medicamentos reduzem em 96% a probabilidade de transmitir o vírus da Aids aos seus parceiros não infectados.
Os efeitos na sobrevida de pessoas com Aids foram analisados por outro grupo de cientistas da mesma universidade. Ao analisar mais de 100 mil pessoas na zona rural da província de KwaZulu-Natal entre 2000 a 2011, os pesquisadores observaram um aumento de 11,3 anos no prolongamento da vida em adultos desde que os tratamentos com antirretrovirais foram ampliados na região. Em 2003, um ano antes de o tratamento se tornar disponível no sistema de saúde do setor público, a expectativa de vida adulta era de 49,2 anos. “Até 2011, a expectativa de vida adulta tinha aumentado para 60,5 anos, o que representa um ganho de 11,3 anos”, diz o estudo.
Apesar dos custos considerados elevados do tratamento, que variam entre US$ 500 e US$ 900 por pessoa, por ano, os dois artigos defendem que o investimento em antirretrovirais compensa. Isso porque os benefícios trazidos reduzem em até 26 vezes o que seria gasto com outros tipos de assistência. Os estudos foram publicados hoje na revista Science, periódico científico internacional que dedicou boa parte de sua edição ao tema da Aids na África do Sul.
Um dos pontos ressaltados pela publicação foi a implicação social que uma baixa expectativa de vida entre os soropositivos pode resultar. Porque as pessoas com Aids normalmente são adultas e economicamente ativas, uma taxa alta de mortalidade inclui o declínio de renda das famílias, das comunidades e dos governos. Além disso, há o aumento no número de órfãos, a perda de trabalhadores qualificados e a interrupção da transmissão de conhecimentos entre as gerações.
“Os resultados fornecem evidências convincentes de que o risco de adquirir a infecção pelo HIV é reduzida como resultado da alta cobertura da terapia antirretroviral na comunidade envolvente”, defende Frank Tanser, um dos autores do artigo. Segundo ele, a descoberta é importante para ajudar a orientar as ações de combate à epidemia de Aids. Apesar da esperança de controle, o pesquisador reforça os empecilhos encontrados no trajeto. Alguns exemplos são a dificuldade dos sistemas de saúde públicos da África do Sul em fornecer os medicamentos à população, a possibilidade de desenvolvimento de resistência aos antirretrovirais, a baixa adesão ao tratamento e a baixa cobertura dos testes para o diagnóstico da doença.

Realidade brasileira De acordo com Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, o combate à Aids tem de envolver o tripé prevenção, diagnóstico e qualidade de vida aos infectados..
A estimativa é de que, das 540 mil infectados no país, a rede pública brasileira atenda 220 mil no tratamento por antirretrovirais. Segundo o governo, a sobrevida dos pacientes de Aids dobrou entre 1995 e 2007. O tempo médio saltou de 58 meses para mais de 108 meses. O período, de nove anos, é menor do que o registrado na província da África do Sul em 2011.
Um dos grandes desafios no Brasil e no mundo é conseguir segurar o paciente no serviço de tratamento. Isso porque os medicamentos não são capazes de curar a Aids, mas de reduzir a carga viral e melhorar a qualidade de vida das pessoas que têm a doença. “Quando o paciente inicia o tratamento, ele é para a vida toda. Todos os dias ele vai ter que tomar o medicamento, é realmente uma mudança de hábito. Esse é o nosso calcanhar de aquiles: manter esse paciente no tratamento contínuo. No Brasil, ainda temos uma condição favorável, que é o fácil acesso aos medicamentos devido ao Sistema Único de Saúde, mas isso em uma zona rural da África pode não ser tão fácil”, explica Unaí Tupinambás, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
No Brasil, desde 2012, um consenso terapêutico antecipou o início do tratamento para os soropositivos. Até então, os antirretrovirais só eram indicados quando a contagem de células de defesa (CD4) fosse inferior a 350 por milímetro cúbico de sangue. O novo valor de corte passou a ser 500/mm³. “Essa é uma estratégia interessante porque consegue incluir quase 80% das pessoas que têm HIV no país”, defende Tupinambás. Segundo o médico, o aumento da expectativa de vida após o início do tratamento é possível devido à redução da carga viral e à recuperação do sistema imune, diminuindo, então, a incidência das doenças oportunistas.


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